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Superinteressante edição 239
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Do pó ao pó

O que acontece com quem cheira cinzas de cadáver?

Texto Paula Gonçalves

Keith Richards, o guitarrista lesado dos Rolling Stones, disse que cheirou as cinzas do próprio pai com cocaína e depois desmentiu. Supondo que ele realmente tivesse aspirado o velho, será que isso faria algum efeito na carcaça carcomida do Keithão?

Para começar, quem decide fazer essa asneira enfia nariz adentro um pó arenoso. “As cinzas têm uma consistência mais próxima do açúcar, enquanto a cocaína se assemelha à farinha”, diz a bioantropóloga Sheila Ferraz, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio. Num processo crematório, o corpo é incinerado a temperaturas de até 1 000 0C. As cinzas resultantes ainda passam por um processo de trituração para eliminar os pedaços de ossos que resistirem.

Ao contrário das drogas ditas “recreativas”, as cinzas não têm nenhuma propriedade analgésica, estimulante ou alucinógena. Elas só diluiriam o pó do Keith. De resto, Sheila diz que a inalação dessas cinzas não seria muito diferente da que inalamos todos os dias nas cidades poluídas – ou pior: a que inalam os trabalhadores de carvoarias.

Isso porque as partículas da cinza se assemelham àquelas que existem na fumaça. O bioquímico Bayardo Torres, da USP, dá o exemplo do cigarro: “Além das substâncias tóxicas, a fumaça do cigarro contém material particulado, que fica depositado nos alvéolos”. É isso que faz o pulmão do fumante mudar de cor com o passar dos anos. Como nem o Keith Richards iria cheirar cinza de cadáver todo dia, esse material seria logo eliminado no pigarro ou na tosse.

 

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