
Na próxima vez que você tiver vontade de reclamar do frio, pare para pensar na sua sorte. Temperaturas médias amenas como as dos últimos 10 000 anos, com direito a banho de sol na praia e até a um mergulho no mar morninho de vez em quando, foram raríssimas na história do planeta. Os dados disponíveis, abrangendo os últimos 5 milhões de anos, mostram que, durante 90% do tempo, a Terra esteve sob uma frigidez mortal — assolada pelas glaciações.
Glaciações produzem mudanças drásticas no clima. Elas vêm e vão em grandes ciclos, duram 100 000 anos e transformam o planeta num freezer. Nesse período, um quarto do hemisfério norte fica sob uma capa de gelo de milhares de metros de espessura. Boa parte dos oceanos vira um vasto rinque de patinação. Segue-se um curto instante de alívio, de alguns milhares de anos de calor, chamado período interglacial, e depois o longo inverno retorna. É dose para pingüim.
Até este ano, era consenso que estaríamos entrando na etapa final de um desses breves intervalos ensolarados. Os cientistas sustentavam a afirmação pelo fato de que a Terra gira meio tombada no espaço (veja o infográfico abaixo). Entenda o raciocínio: a inclinação faz com que os pólos fiquem voltados para o Sol, durante o verão, e percam a neve que cai no inverno. Só que a inclinação da Terra varia com o tempo: há dez milênios, ela era maior do que hoje e os verões, mais fortes. Foi isso que fez o frio recuar, naquela época, imaginavam os cientistas. Então, como agora a inclinação está menor, eles deduziam que o gelo deveria estar de volta.
Mas não é o que pensa o paleoceanógrafo David Hodell, da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Para ele, a inclinação não é tão decisiva quanto se pensava, pois a distância entre a Terra e o Sol também pode mudar. Hoje, estamos relativamente perto do calor, o que tende a afastar a oscilação congelante.
Foi assim há 400 000 anos, quando o planeta estava em condições astronômicas parecidas com as atuais e a fase aquecida durou 30 000 anos. A partir daí, Hodell lançou o desafio: "Acho que o frio ainda demora 20 milênios para chegar", disse à SUPER. Se ele estiver certo, teremos tempo de sobra para nos esbaldar na praia. Antes de guardar os biquínis e os calções por uns 1 000 séculos.
Mais inclinação, menos gelo
Na inclinação máxima da Terra, de 24,5 graus, chega mais luz ao pólo e o gelo não se amontoa. Hoje, o ângulo é de 23,5 graus e está diminuindo. A diferença é ínfima, mas ao longo de milênios a menor inclinação pode trazer uma nova era glacial.
De pé, risco de glaciação
Alguns cientistas acham que a glaciação não virá tão cedo. Eles alegam que só haveria risco imediato se a inclinação estivesse no seu valor mínimo, de 22,5 graus. Nessa posição, o pólo recebe pouca energia e a tendência a armazenar neve é grande.
Um dos desafios dos climatologistas é destrinchar os movimentos astronômicos da Terra que empurram o nível dos termômetros para baixo. O primeiro é o que altera a inclinação do planeta: quanto mais ele tomba, mais luz solar chega aos pólos e menos gelo se acumula por lá. Há 10 000 anos, a inclinação era maior que hoje. De lá para cá, a variação foi pequena, de apenas 1 grau. Mas, com o tempo, ela teve um efeito no clima (veja no infográfico à esquerda).
Vinha daí o palpite de que a Terra iria para a geladeira nos próximos séculos. Só que a rotação do planeta em torno do Sol também mexe com a temperatura. Como hoje percorremos uma elipse bem arredondada no espaço, nunca nos afastamos muito da fornalha solar (ficamos no máximo a 151 milhões de quilômetros dela, o equivalente a quase 4 000 voltas na Terra). Em comparação, há 100 000 anos a órbita era mais alongada e a distância chegava até 152 milhões de quilômetros. O resultado foram verões apenas mornos, sem força para derreter as nevascas dos invernos, e aos poucos instalou-se um clima glacial.
Agora, a proximidade do Sol pode atrasar a chegada da glaciação que se previa estar no início. Para o climatologista James Kasting, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, o homem também está interferindo nas glaciações. Ele se refere ao aquecimento da atmosfera causado pelo gás carbônico que sai dos carros, das fábricas e da queima das florestas. O gás armazena a energia solar e faz o termômetro subir. É mais um motivo para adiar o congelamento por um bom tempo. Talvez até para sempre. "A fumaça poderá acabar de vez com as glaciações", disse Kasting à SUPER.
O estudo da glaciação mais recente, que só terminou 10 000 anos atrás, mostra que a temperatura média da Terra ficou uns 9 pontos abaixo dos 15 graus Celsius atuais. O efeito foi a formação de um iceberg monstruoso, com 4 quilômetros de espessura, que ocupou, primeiro, todo o Oceano Ártico. Depois avançou sobre terra firme, engolindo metade da Europa e da América do Norte e um décimo da Ásia. Plantas e bichos, entre eles os Homo sapiens, fugiram para regiões mais ao sul, para o que sobrou de cada continente.
O resto do mundo não congelou, mas sofreu com a estiagem. Com o frio, até o vapor do ar condensou e virou neve. A atmosfera ficou sem umidade. "O planeta inteiro ressecou", conta o geólogo Paulo Roberto dos Santos, da Universidade de São Paulo. A secura transformou boa parte das florestas em vegetação rasteira. Para o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), "a Amazônia ficou com metade da área atual".
Mesmo assim, lembra Bertini, não há por que se queixar dos ciclos congelantes. Considere que eles alteram o ambiente e obrigam as espécies a evoluir. Nossos ancestrais macacóides podem ter sido obrigados a descer dos galhos depois que uma glaciação, há 4 milhões de anos, dizimou as matas que habitavam. Com isso, aprenderam a andar com duas pernas no chão. Para nós, que descendemos desses bípedes, foi como tirar a sorte grande.
Para saber mais
História Ecológica da Terra, Maria Léa Salgado-Labouriau, Editora Edgard Blücher, São Paulo, 1994.1. Mais perto do calor
O planeta, às vezes, pode dar voltas mais alongadas em torno do Sol. Com isso, ele passa pelo menos uma parte do ano distante do fogo solar, o que ajuda a esfriar. Daqui a 10 000 anos os rodopios vão ser bem redondos. Estaremos perto do calor o ano todo.
2. Destino incerto
A órbita, hoje, já está bem circular e o planeta, aquecido. Apesar disso, seu eixo está ficando menos inclinado. Assim, a energia que chega aos pólos é pouca para derreter o gelo. Entre as duas tendências, os cientistas dizem que o resfriamento pode até vir, mas só daqui a uns 20 000 anos.
3. Fora da geladeira
Há uns 100 000 anos, a órbita era um pouco mais alongada que hoje e o eixo estava bem de pé. O resultado foi uma glaciação demorada, que só terminou, por completo, 10 milênios atrás.
4. Picolé total
Uma das fases mais tiritantes do passado ocorreu há cerca de 200 000 anos. O planeta até que estava bem tombado, mas rodopiava a grande distância do Sol. Com isso, cobriu-se com uma capa de neve pesada.
5. Evidência remota
As condições astronômicas mais parecidas com as que temos hoje foram registradas 400 000 anos atrás. Como elas deram origem a um intervalo aquecido de 30 000 anos, acredita-se que o bom tempo atual pode ter uma duração equivalente.
Nos últimos 400 000 anos, houve apenas cinco períodos quentes. O primeiro 1 estendeu-se por 30 milênios. O segundo 2, o terceiro 3 e o quarto 4 duraram cerca de 20 000 anos. O quinto 5 é aquele que estamos atravessando agora. Prevê-se que ele terá a mesma duração do primeiro.
O hemisfério norte foi mais afetado porque o sul contém muita água. Os oceanos retêm mais calor que a terra e sua temperatura não varia tanto. Assim, a parte de baixo do equador não congelou.
As regiões onde hoje estão Nova York e Chicago ficaram submersas pela montanha de neve endurecida.
Os grandes lagos americanos se formaram com a água derretida no final do período.
O frio ressecou a atmosfera e encolheu as florestas. À esquerda, você vê as matas brasileiras (verde-escuro) quando os portugueses chegaram. À direita, no tempo frio, há 20 000 anos.
Acima do equador, o frio foi suficiente para criar um manto gelado sobre o mar e uma parte dos continentes.
Esta linha indica as áreas onde o leito do mar ficou seco. O nível dos oceanos baixou porque sua água virou neve e tomou a forma de geleiras.
Com o nível da água mais baixo, o leito do oceano virou terra firme, na costa do Rio de Janeiro. Se a cidade existisse, não teria praia. Estaria a 100 quilômetros da orla marítima.
Uma camada de gelo com 4 quilômetros de espessura cresceu sobre o Ártico, a Europa, a Ásia e a América do Norte.
Sobre a Suécia, o peso do gelo era tanto que deformou as rochas. O solo ficava dezenas de metros abaixo do nível atual. Depois do degelo, as rochas retomaram a forma original.
Os territórios da Holanda, da Alemanha e dos países escandinavos ficaram totalmente cobertos pela muralha gélida.
Mamutes, raposas árticas e renas, típicos da região ártica, viviam até no sul da França, que hoje não tem nem traço do clima polar.
Com a seca, o Deserto do Saara ficou enorme. A área amarela no mapa mostra seu tamanho há 20 000 anos. A linha verde é seu limite atual.
Na época, havia tigres-de-dente-de-sabre na América do Norte, adaptados aos campos. Quando as matas do sul viraram mato baixo, eles migraram para cá e dizimaram espécies daqui, como a preguiça gigante (ao lado).