
A lancha sai de Santos, no Estado de São Paulo, e 45 quilômetros e 2 horas depois surge no horizonte uma imensa baleia branca. Mais perto, a miragem se dissipa: é uma vasta rocha isolada no oceano — a Laje de Santos. Em cima da pedrona, há só um farol, automático e deserto. O calor é sufocante, não existe água e a vegetação se limita a tufos de capim. Apenas milhares de atobás guardam a superfície esbranquiçada.
Mas abaixo da linha d’água há um segredo: uma riquíssima comunidade de animais e plantas. Apesar de ter sido tombada como Parque Marinho em 1993, só agora, seis anos depois, vinte biólogos e oceanógrafos do Instituto Florestal da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, da Fundação de Estudos e Pesquisas Aquáticas (Fundespa) e da Universidade de São Paulo vão começar o inventário da flora e da fauna locais. "Uma rocha assim isolada constitui um ecossistema raríssimo", explica a bióloga Mabel Augustowski, diretora do parque. Você vai ver por quê.
Fortaleza costeira
A ilha de 500 metros de comprimento e 200 metros de largura tem paredões de até 33 metros de altura, equivalentes a um prédio de dez andares. As manchas brancas na pedra são guano, fezes das aves que, levadas para o mar pela chuva, alimentam o fitoplâncton — as algas microscópicas que formam a base da cadeia alimentar marinha
Rei do pedaço
A maior parte da população da ilha é de atobás-marrons (Sula leucogaster). Afora eles, moram ali raras gaivotas, pouco interessadas em terras distantes da costa
Dando um tempo
O peixe-borboleta (Chaetodon striatus) foi fotografado em um raro momento de isolamento. A espécie, que costuma nadar em casais, utiliza a boca bicuda para vasculhar as frestas das rochas atrás de crustáceos e moluscos
A ilha é o castelo de uma espécie só
Do alto da pedra, o atobá reina, soberano. Ali ele não tem sombra nem água fresca, mas tem, sim, sossego. Não existe a ameaça de predadores, como cobras e lagartos. O homem nem chega perto. É proibido escalar os paredões, fiscalizados pela Polícia Florestal. Folgado, nem para matar a sede o atobá se aperta. Como as demais aves marinhas, ele possui um sistema original de dessalinizar a água salgada que bebe (veja ao lado). Nessa ilha de tranqüilidade, a colônia se multiplica aos milhares.
Se a rocha seca é o castelo do rei atobá, nos paredões debaixo d’água os peixes pululam. Além das espécies típicas de recife, que moram em torno da rocha, xaréus, olhos-de-boi e até arraias-jamanta de 2 metros de envergadura circulam pelas águas claras. São o que os biólogos chamam de peixes de passagem. Ficam pouco tempo. "Como não existe nenhuma outra ilha por perto, a laje se tornou um ponto de atração para a fauna da região", explica Mabel. Por isso ela é tão rica.
Boca-livre
O bodiãopapagaio (Bodianus rufus) alimenta-se de ouriços e pequenos caranguejos. Quando jovem, com os caninos pouco desenvolvidos, devora os parasitas que crescem sobre o corpo de outros peixes. Em troca, os beneficiados evitam comer o faxineiro
Pequeno mas valentão
O donzelinha (Stegastes fuscus) mede apenas 10 centímetros de comprimento. Mas sabe defender seu território bravamente contra o bodião, até quatro vezes maior
Transexual
O bodião (Bodianus pulchellus), de até 30 centímetros de comprimento, sabe trocar de sexo. Ele nasce tanto com o aparelho reprodutor da fêmea quanto com o do macho. Ao amadurecer, desenvolve órgãos femininos ou masculinos, dependendo da necessidade do cardume. A adaptação evita o desequilíbrio entre os sexos na comunidade
Tapetes de esponja e ladrilhos multicoloridos
Mesmo proibido de escalar as paredes, o homem ameaça a diversidade da pedra erma. Redes de pescadores e caçadores submarinos ilegais vira e mexe desafiam a fiscalização. O porto de Santos também ameaça poluir com óleo vazado dos navios. Outro risco é a água trazida no porão dos cargueiros, como lastro, que carrega vários passageiros clandestinos — peixes, larvas e crustáceos vindos de mares distantes. "Se eles invadirem a laje, vão disputar espaço e comida com as espécies nativas", explica Luiz Roberto Tommasi, da Fundespa. Se levarem alguma vantagem competitiva sobre a fauna local, como maior habilidade para capturar alimento, o ecossistema inteiro se desequilibra.
Os corais já sentem os efeitos da ação humana. Vários estão atacados pela chamada doença do branqueamento (veja o quadro na página ao lado). Os cientistas não sabem precisamente a causa do mal, mas suspeitam do aquecimento das águas provocado pelo efeito estufa. "Só poderemos preservar esse ecossistema se conhecermos muito bem o que existe ali", diz Tommasi. Porque, sem proteção, os habitantes da grande baleia branca estarão, literalmente, fritos.
Pernas, pra que te quero
A estrela-do-mar (Equinaster brasiliensis) pode fugir rápidamente e se esconder do predador nas frestas da rocha. Mas, se for abocanhada, não fica muito tempo perneta. Seu grande poder de regeneração lhe dá um membro novo em pouco tempo
Vagalume marinho
Este animal que flutua na água é um ctenóforo — um bicho esquisito que, como as medusas, tem mais de 90% do corpo composto de água. A diferença entre os dois é que os tentáculos do ctenóforo não são dotados de células urticantes — não queimam
1. A água cheia de sal desce para o aparelho digestivo e alcança a corrente sanguínea.
2. Quando o sangue chega à cabeça, passa pela glândula de sal, que faz a filtragem. As células da glândula são pregueadas. Quando o sangue passa por ali, o cloreto de sódio é retido pelas pregas.
3. Quando a célula está supersaturada, bombeia o sal para os canais de excreção. O animal espirra a substância pelas narinas, em cima do bico. O organismo fica limpo.
As manchas vermelhas são esponjas incrustantes. Para se alimentar, elas bombeiam a água para dentro do organismo e retiram dela plânctons.
Os tufos amarelos são colônias de animais fixos, chamados briozoários. Cada indivíduo não passa de 0,5 centímetro de comprimento.
Estes pequenos ramalhetes são anêmonas-do-mar. Têm menos de 2 centímetros de altura. Parecem inofensivas mas são carnívoras. Capturam minúsculos animais paralisando-os com o veneno dos seus tentáculos.
Este é um coral saudável. Colorido
Os pólipos — pequenos organismos que formam o coral ao se juntar — atraem minúsculas algas, que colam neles.
Em troca, as algas fornecem à colônia nutrientes para sobreviver.
Este é um coral doente e moribundo. Esbranquiçado
Os pólipos perderam a cor porque não têm mais as algas que os alimentem.
O aquecimento das águas, causado, provavelmente, pelo efeito estufa, matou os vegetais.