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Genética

Superinteressante edição 140
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Meu gene, meu bem, meu mal

O Brasil vai produzir vegetais geneticamente modificados. Isso coloca o país no centro do bate-boca mundial em torno da segurança dos alimentos transgênicos para a saúde e o ambiente.

Por Ivonete D. Lucírio
O país discute e os gaúchos proíbem

 

Você entra no supermercado, pega uma espiga de milho e sabe que está comprando um produto criado pela natureza. Com um tanto de agrotóxico, é verdade, mas, ainda assim, natural. Pois, daqui a algum tempo, na mesma prateleira, você vai dar de cara com o milho transgênico. A aparência e o sabor dos grãos continuarão iguais. Mas dentro de suas células haverá a marca do homem: um ou mais genes adulterados.

Inserir um gene para que a planta faça o que o agricultor quer parece uma tática genial. Mas há quem ache que os vegetais modificados são um cavalo de Tróia que traz escondidas ameaças à saúde e à agricultura (veja nos infográficos). "Ainda não dominamos a técnica a ponto de garantir que não haja risco", diz o agrônomo Miguel Guerra, secretário da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Santa Catarina. "Precisamos de mais pesquisas antes de colocar tais produtos no mercado."

 

Nem que o governo autorize

Foi devido a esse receio das transgênicas que a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul interditou lavouras de soja supostamente alterada, em cidades do interior do Estado. É que esse tipo de plantação não foi ainda autorizada pelo governo federal. E, mesmo que a União libere, o governo estadual não quer culturas mutantes em solo gaúcho. "A maior parte dos países para os quais exportamos prefere alimentos naturais", disse à SUPER José Hermetto Hoffman, secretário da Agricultura daquele Estado. "Não temos certeza sobre a segurança da soja manipulada."

Não é isso o que pensam os especialistas da Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio), que avalia os alimentos modificados candidatos a entrar no país. Em setembro passado, a comissão, que é ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, deu sinal verde para a primeira safra transgênica brasileira, ao aprovar que a multinacional americana Monsanto produza sementes de soja alteradas.

Graças a um gene extra, essa soja tolera doses maiores do herbicida Roundup Ready, fabricado pela própria Monsanto. Assim, vai superar uma limitação das culturas comuns, que exigem que o agrotóxico seja aplicado em doses menores, intercalado a outros produtos. Do contrário, o remédio pode matar o próprio doente. A Monsanto espera agora a autorização do Ministério da Agricultura — o que, segundo a indústria, deve acontecer em setembro próximo. Tudo para que sua soja transgênica, encharcada de Roundup, possa produzir mais.

A grita da turma do contra pode até atrasar a chegada das transgênicas. Mas, no que depender do ministro da Agricultura e do Abastecimento, Francisco Sérgio Turra, a entrada da novidade é inevitável e necessária. "É uma nova tecnologia que vai melhorar nossa safra", disse ele à SUPER. "Não podemos dispensá-la."

O pomo da discórdia

Uma planta transgênica é aquela que tem um ou mais genes mudados em laboratório. Com isso, os cientistas dão ao vegetal qualidades como resistência a pragas ou a substâncias químicas e maior valor nutricional. No Brasil,três culturas mutantes estão para entrar na lavoura: a soja, o milho e o arroz. A primeira deve começar a ser plantada ainda em 1999, debaixo de pesada polêmica.

Um desastre ambiental provocado por plantas manipuladas pode ter conseqüências irreversíveis."

Marijane Lisboa, coordenadora da campanha Brasil Livre de Transgênicas, da Greenpeace

Contra

Com o aumento da tolerância da soja ao Roundup, o agricultor vai se sentir liberado para usar e abusar desse herbicida. Com isso, aumenta o risco de contaminação do solo, dos rios e do alimento.

 

A favor

A transgênica tornará possível usar um único herbicida, o Roundup, em vez de cinco. "No balanço final, o grau de toxicidade das substâncias aplicadas é menor", argumenta Rodrigo Lopes Almeida, da Monsanto, a indústria que desenvolve a soja.

"A segurança é garantida pela aprovação que as empresas de biotecnologia têm de receber do governo, a cada etapa de pesquisa."

Flávio Finardi Filho, farmacêutico-bioquímico da Universidade de São Paulo

Contra

Devido à semelhança entre o arroz-vermelho (a praga) e o arroz normal, o gene da resistência ao herbicida pode passar para o vermelho, que se tornaria indestrutível.

 

A favor

Embora pouco provável, a contaminação genética pode acontecer. "Mesmo assim, o arroz-vermelho resistirá apenas a um herbicida específico", diz André Abreu, da Agrevo, a empresa alemã que desenvolve transgênico. "Na pior das hipóteses, o agricultor voltará aos herbicidas comuns."

Contra

Desaparecendo as variedades, os milharais ficam com as mesmas características. Se surgir uma praga nova, toda a produção agrícola da região poderá ser dizimada.

 

A favor

Mexer nos genes para um fim específico, como aumentar a resistência a pragas, não muda outras características da planta. Mesmo que a modificação passe para plantações naturais, estas últimas vão manter as demais diferenças em relação ao pai mutante.

Você tem o direito de saber para escolher

Nos Estados Unidos e em vários países europeus, a população já consome, há dez anos, uma dúzia de produtos geneticamente manipulados. Mesmo lá, os ecologistas batem forte e exigem leis rígidas para proteger a saúde humana. É uma questão de bom senso: você encararia um prato de arroz, bife de soja e creme de milho em que a alma dos vegetais sofreu mutação? Há quem recomende manter distância do prato.

Um dos desconfiados é o bioquímico Arpad Pusztai, do Instituto de Pesquisa Rowett, especializado em nutrição, na cidade de Aberdeen, Escócia. Em agosto de 1998, Pusztai contou, num programa de televisão, que batatas transgênicas teriam causado anomalias em ratos (veja o infográfico ao lado). O cientista foi demitido sob a alegação de que deveria ter publicado os resultados de sua pesquisa em uma revista científica antes de divulgá-los.

Mais tarde, especialistas do Rowett e de dois outros institutos britânicos analisaram o trabalho de Pusztai e concluíram que as anormalidades poderiam ter sido causadas por outros fatores que não a modificação genética. Ou seja, o experimento não provava nada contra os transgênicos. Inconformado, Pusztai se defende: "Meu trabalho era um ponto de partida, mas não pode ser descartado", disse ele à SUPER. "Ele indica que a modificação genética pode fazer mal à saúde".

 

Riscos a longo prazo

O fato é que ninguém ainda provou que os vegetais transformados causam algum mal à saúde. É verdade que, em 1989, 37 americanos morreram ao ingerir alimentos com genes alterados. O produto foi recolhido. Hoje, nenhum alimento alterado é vendido sem testes rigorosos. "Mas não sabemos que problemas podem surgir nas próximas décadas", diz Sezifredo Paz, coordenador do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Por isso, o Idec defende o uso de rótulos de advertência.

A Monsanto, entretanto, rejeita. "Isso só teria cabimento no caso de se mexer nos componentes nutricionais", diz Rodrigo Lopes Almeida, diretor de assuntos corporativos da multinacional. A soja, o milho e o arroz, que sofrem mudanças apenas para garantir maior produtividade, estariam dispensados da obrigação. "Não é bem assim. O que eles querem é arriscado, mas não admitem", rebate Marilena Lazzarini, do Idec. "Não tivemos ainda tempo de avaliar a segurança dessas culturas hiperprodutivas para a saúde das próximas gerações."

Sejamos justos. Enquanto acusadores e defensores das transgênicas não chegam a um consenso, nada mais correto que o consumidor seja informado de que está ingerindo alimentos que até há pouco só existiam em filmes de ficção científica. Aí, sim, ele pode decidir se leva, ou não, a espiga ET do supermercado.

"Todo alimento modificado tem de ser rotulado. É um direito do consumidor saber exatamente o que está comprando."

Marilena Lazzarini, coordenadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)

Para saber mais

 

Na Internet: www.sbpcnet.org/br/forum8/forum8.html

vm.cfsan.fda.gov/˜lrd/biotechm.html

"Podem até surgir transgênicas que afetem a saúde humana. Mas elas jamais chegarão a ser comercializadas."

Maria Cléria Valadares, bióloga da Embrapa, do Ministério da Agricultura e do Abastecimento

Contra

A planta passa a produzir uma proteína artificial. Suspeita-se que essa substância provoque alergia em quem a come.

 

A favor

Todo produto transgênico passa por inúmeros testes antes de ser lançado. "É possível até, conhecendo a estrutura da proteína que será produzida, saber antecipamente se ela será alergênica", diz Maria Cléria Valadares, pesquisadora da Embrapa. "Caso a pesquisa comprove algum risco para o organismo, a planta simplesmente não entra no mercado."

1. Em plantações normais são aplicados, alternadamente, cinco tipos de agrotóxicos para matar as ervas daninhas. O problema é como aniquilar as competidoras sem afetar também a lavoura.

 

2. Ao ser reformada, a soja ganha um gene que a faz resistir a um herbicida específico, chamado Roundup Ready, construído para matar todas as ervas daninhas de uma vez só.

1. A bactéria chamada Streptomyces higroscopicus produz um aminoácido capaz de secar qualquer planta. A mesma bactéria fabrica, também, uma proteína que neutraliza o aminoácido secante.

 

2. Bioquímicos prepararam um herbicida com o aminoácido nocivo e inseriram em arrozais o gene que produz a proteína defensora. O remédio mataria as ervas daninhas mas deixaria o arroz protegido.

1. Os milharais não são todos iguais. Plantas nascidas do mesmo tipo de semente possuem características únicas. As sementes são geradas quando o pólen de uma planta cai no órgão feminino de outra.

 

2. No caso de plantações próximas, se um pólen alterado cair sobre um pé natural, nascerão sementes com as características da planta mutante. Com o tempo, pode-se criar uma nova geração de clones que exterminariam as variedades diferentes. 1. Três grupos de ratos foram alimentados com batatas diferentes:

 

O primeiro grupo comeu batatas sem qualquer alteração nutritiva.

 

O segundo comeu batata injetada com lectina, uma proteína comum em legumes como o feijão.

 

O terceiro comeu batata modificada para produzir a lectina dentro de suas células.

 

2. Depois de dez dias, os três grupos foram submetidos a exames. Segundo o autor da pesquisa, Arpad Pusztai, eles mostraram que:

 

Os ratos que comeram a batata comum e a injetada com lectina continuavam saudáveis.

 

Os alimentados com a batata modificada tiveram alterações no intestino, no fígado, no baço (responsável pela renovação das células vermelhas) e no timo (envolvido nos processos de defesa do corpo). Contra

Um comitê científico avaliou o trabalho e concluiu que o experimento não prova que as modificações celulares tenham sido causadas pelas alterações genéticas. Os ratos podem ter ficados doentes por outro fator não controlado pela pesquisa

 

A favor

Se apenas os ratos que comeram a batata transgênicas ficaram doentes, a doença não foi causada pela lectina em si, mas pela operação nos genes.

1. Os agrônomos descobriram uma bactéria que produz uma proteína fatal para as lagartas que atacam a cana-de-açúcar.

 

2. Isolado, o gene da bactéria foi inserido na planta. A planta passou, então, a produzir a proteína venenosa, que elimina os pequenos comilões.

 

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