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Ambiente

O estrago que não se vê do alto

Com os pés bem firmes no chão, uma grande equipe de pesquisadores mediu a área total devastada na Amazônia - coisa que os satélites não conseguem ver lá de cima.

Pela primeira vez, a ciência consegue avaliar com precisão a destruição da Floresta Amazônica. A cada ano, são derrubados 30 000 quilômetros quadrados de mata — o equivalente a uma Bélgica inteira ou a vinte cidades de São Paulo. Desse total, apenas metade era conhecida por imagens dos satélites. É que, do alto, só dá para localizar áreas com mais de 6 hectares, o equivalente a seis quarteirões. Os restantes 15 000 quilômetros quadrados são constituídos de milhares de clareiras minúsculas. Elas têm, em média, 150 metros quadrados, um quarto do tamanho de uma piscina olímpica. E só são notadas quando se olha de perto. Foi isso o que fez a equipe de doze cientistas liderada por Daniel Nepstad, do Centro de Pesquisa Woods Hole, nos Estados Unidos. Eles entrevistaram 1 393 funcionários de madeireiras responsáveis por 90% da extração de madeira na região. Depois, entraram na mata e confirmaram os dados coletados. "As pequenas cicatrizes têm um efeito nefasto", contou à SUPER o ecólogo Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), em Belém do Pará. "Elas deixam a floresta mais suscetível a incêndios em tempos de seca."

1. Na mata intacta, as folhas das copas cobrem 90% do espaço. Ou seja, apenas 10% do chão recebe luz solar diretamente, em algum momento do dia.

2. Nas clareiras criadas pelas madeireiras, de 150 metros quadrados, a copa das árvores cobre, no máximo, 50% do chão.

3. A umidade relativa do ar, ao meio-dia, é de 85%. A evaporação das árvores é tão grande que fornece metade da água que cai ali na forma de chuva.

4. Aqui, a umidade relativa do ar, ao meio-dia, é de 65% — mais ou menos a mesma que a do meio-dia na cidade de São Paulo.

5. A temperatura máxima é de 28 graus Celsius.

6. Na mata explorada, o calor chega a 38 graus Celsius.

7. As folhas e os galhos derrubados por ventos e chuvas acumulam 50 toneladas em cada hectare*. Essa camada seca vai se decompondo e se transforma em húmus, que fertiliza o solo.

8. As derrubadas e queimadas deixam no chão 180 toneladas de folhas e galhos secos em cada hectare.

9. Com tanta sombra e umidade, a mata fechada não pega fogo nem nos meses mais secos do ano.

10. Basta uma semana sem chuva para que a mata explorada se torne inflamável.

11. O fogo das queimadas invade a mata vizinha à clareira.

12. As labaredas não alcançam a copa, mas lesam os troncos.

13. Cerca de 60% das grandes árvores afetadas pelos incêndios rasteiros morrerão nos dois ou três anos seguintes, criando mais combustível para os próximos incêndios.

 

* 1 hectare = 10 000 metros quadrados, o equivalente a um quarteirão

 

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