

Texto Salvador Nogueira
A alquimia passou séculos tentando transformar chumbo em ouro. Em vão. Mas não é que a ciência acabou de conseguir algo comparável?
Foi em novembro, quando dois grupos de pesquisadores produziram célulastronco embrionárias sem usar embriões. Quase um passe de mágica.
O sucesso deles ressuscitou os debates sobre a ética no uso de embriões em pesquisa. E não faltam políticos conservadores, principalmente nos EUA, dizendo que agora o uso deles está ultrapassado.
Mas talvez seja cedo demais para tanto. Como logo veremos, no mundo da magia biotecnológica nada vem de graça, nem que você seja um Harry Potter. Mas, antes, uma paradinha para explicarmos que diabos são as células-tronco e por que tantos cientistas andam obcecados por ela.
É o seguinte: um dia, você já foi feito praticamente só de células-tronco. Não se lembra? Pois é, a gente não costuma guardar lembranças dos nossos primeiros dias no útero, mas, acredite, foi assim que aconteceu.
Naquela fase inicial da vida, em que dava para contar quantas células você tinha, todas elas estavam numa espécie de crise de identidade mais ou menos como adolescentes antes de prestar vestibular. No fim, cada célula escolheu sua profissão. Umas viraram fígado, outras coração, algumas optaram por ser cérebro... O resultado final foi você.
Essa foi a boa notícia. A má é que, depois disso tudo, se estagnaram nas profissões que escolheram. Ou seja: seus tijolos básicos perderam o potencial para virar qualquer coisa. Se o seu coração pifar, você vai precisar de um transplante de órgão, porque as células do pulmão não podem quebrar o galho e se transformar em coração.
Agora, e se fosse possível quebrar um embrião e cultivar células-tronco em laboratório? Haveria órgãos feitos sob medida para quem precisa de um transplante? Novas células produtoras de insulina para os diabéticos?
Foi apostando que a resposta a essas perguntas seria sim que cientistas entraram nessa cruzada pelo estudo com células-tronco embrionárias. E começaram a estraçalhar embriões (geralmente doados pelos pais deles) para fazer suas pesquisas. Só que muita gente abomina isso.