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Superinteressante 245 - Tropas de Elite

Depois do Gelo

Livro de Steven Mithen, Imago, 677 páginas, R$ 110. Leia o primeiro capítulo

1
O Nascimento da História
Aquecimento global, indícios arqueológicos e história humana

A história humana começou em 50000 a.C. ou por aí. Talvez 100000 a.C., mas certamente não antes. A evolução humana tem um pedigree bem mais longo — pelo menos 3 bilhões de anos se passaram desde a origem da vida, e 6 milhões desde que nossa linhagem se cindiu à do chimpanzé. A história, desenvolvimento cumulativo de fatos e conhecimento, é assunto recente e surpreendentemente curta. Pouca coisa de importância aconteceu até 20000 a.C.—as pessoas apenas continuaram vivendo como caçadores-coletores, exatamente como vinham fazendo seus ancestrais por milhões de anos. Viviam em pequenas comunidades e jamais permaneciam muito tempo em um assentamento. Pintaram-se algumas paredes de cavernas e fizeram-se algumas armas de caça mais ou menos excelentes; mas não houve fatos que influenciassem o curso da história futura, que criassem o mundo moderno.

Então vieram uns espantosos 15 mil anos que testemunharam a origem da agricultura, das cidades e da civilização.1 Em 5000 a.C., as fundações do mundo moderno já se haviam estabelecido, e nada do que veio depois—a Grécia clássica, a Revolução Industrial, a era atômica, a Internet — jamais se igualou ao significado desses fatos. Se 50000 a.C. assinalou o nascimento da história,
20000-5000 a.C. foi a sua maioridade. Para que a história começasse, as pessoas precisavam da mente moderna— uma mente bem diferente da de qualquer ancestral humano ou de outras espécies hoje vivas. É uma mente com poderes de imaginação, curiosidade e invenção aparentemente ilimitados. A história de suas origens é a que contei — ou pelo menos tentei contar — em meu livro The Prehistory of the Mind [A Préhistória da Mente], de 1996.3 Se a teoria que propus — de que múltiplas inteligências especializadas se fundiram para criar uma mente “cognitivamente fluida” — é inteiramente correta, errada ou alguma coisa intermediária, isso não
constitui problema para a história que vou contar agora. O leitor tem apenas de aceitar que há 50 mil anos evoluiu uma mente singularmente criativa. Este livro trata de uma questão simples: que aconteceu depois?

O auge da última era do gelo ocorreu por volta de 20000 a.C. e é conhecido como o último máximo glacial, ou LGM (na sigla inglesa).4 Antes dessa data, as pessoas eram escassas na Terra e lutavam com um clima em deterioração. Sutis mudanças na órbita do planeta em redor do Sol haviam feito com que enormes camadas de gelo se expandissem por grande parte da América do Norte, norte da Europa e Ásia.5 O planeta foi inundado pela seca; o nível do mar baixara, deixando à mostra vastas planícies costeiras, muitas vezes estéreis. As comunidades humanas sobreviveram às mais severas condições retirando-se para refúgios onde ainda se podiam encontrar lenha e alimentos. Logo após 20000 a.C., começou o aquecimento global. Inicialmente, foi meio lento e desigual — muitas pequenas subidas e descidas na temperatura e chuva. Em 15000 a.C., as grandes camadas de gelo começaram a derreter-se; em 12000 a.C., o clima começara a flutuar, com impressionantes ondas de calor e chuva seguidas por súbitos retornos de frio e seca. Logo depois de 10000 a.C., houve um assombroso surto de aquecimento global que pôs fim à era do gelo e introduziu o mundo do Holoceno, em que vivemos hoje. Foi durante esses 10 mil anos de aquecimento global e seu resultado imediato que o curso da história humana mudou.

Em 5000 a.C., muita gente em todo o mundo vivia da agricultura. Novos tipos de animais e plantas — espécies domesticadas — haviam aparecido; os camponeses habitavam aldeias e cidadezinhas permanentes, e sustentavam artesãos especializados, sacerdotes e chefes. Na verdade, pouco diferiam de nós; cruzara-se o Rubicão da história—de um estilo de vida de caça e coleta para o da
agricultura. Os que continuaram como caçadores-coletores também viviam de maneira bastante diferente da de seus ancestrais no LGM. O objetivo desta história é examinar como e por que ocorreram tais fatos — se levaram à agricultura ou a novos tipos de caça e coleta. É uma história global, de todas as pessoas que viviam no planeta Terra entre 20000 e 5000 a.C.

Não foi a primeira vez que o planeta passou por um aquecimento global. Nossos ancestrais e parentes—o Homo erectus, H. heidelbergensis e o H. neanderthalensis da evolução humana—haviam atravessado períodos equivalentes de mudança de clima quando o planeta ia e vinha de eras de gelo a cada 100 mil anos.

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