

Policial Militar há 16 anos, os últimos 5 na Rota, Carlos* diz que ser dessa corporação era o sonho dele e garante: a polícia de elite de São Paulo já foi muito mais violenta. “Hoje a Rota trabalha dentro da lei. A gente se impõe para a bandidagem, mas dentro dos limites. Nosso principal objetivo é controlar distúrbios e tumultos, como foram os ataques do PCC. Mas a gente faz um pouco de tudo: policiamento preventivo, atendimento a ocorrências como assaltos e tiroteios e até escolta de presos. Só não entramos em cadeias para controlar rebeliões. Às vezes ficamos do lado de fora para coibir os manifestantes, em geral mulheres de presos, que sem saber direito o que rola lá dentro, se exaltam lá fora”.
O orgulho da farda
“Temos muito orgulho de ser da Rota. No dia a dia, depois de reunida a tropa no pátio e antes de sairmos às ruas, gritamos o nome da Rota. Todo dia. Nossa boina é preta, diferente da do PM comum. Além disso, nosso braçal, com a inscrição da Rota é nossa diferença. Não sei nem te traduzir em palavras como a boina preta e o braçal são importantes para nós. São tudo. A eles devemos respeito total e a promessa de nunca desonrá-los. Eles nos diferenciam”.
Marcos*, companheiro de Carlos* na Rota, não vê a história bem assim. Há 4 anos no batalhão, conta que pensa em sair. Diz que os integrantes da Rota se acham mesmo “especiais” e muitas vezes acima da lei. “Sempre quando chegamos a um local já chegamos de forma violenta. Descemos escancarando as portas da viatura e olhando todo mundo como suspeito. Quando um bandido é preso pela gente, antes de ir para a Delegacia, ele sempre toma um “caldo”... Socos, pontapés... É pra mostrar quem manda. O policial da Rota tem instinto violento. No batalhão e nas viaturas a conversa é sempre a mesma: quantos malas (bandidos) você já derrubou na carreira? É mais respeitado o policial que já matou mais.”
“E você já matou muitos?” Pergunto.
“Só três, mas em todos os casos os meliantes reagiram. Penso em sair da Rota porque os confrontos são freqüentes e eu tenho família, né?”
Augusto* foi da Rota durante 8 anos. Hoje, afastado faz tratamento psicológico. A violência das ruas e dos próprios companheiros, é, segundo ele, o motivo de ter que ir ao menos duas vezes por semana, desabafar com o psicólogo.
“É muito estressante saber que todos os dias você vai sair para enfrentar bandidos sem saber se vai voltar para casa. Eles estão lá nas ruas roubando, assaltando, matando e dispostos a tudo. A cada ocorrência eu pensava: meu Deus! Vou sair vivo daqui? Fiquei tempo demais na Rota e vi e vivi coisas demais. Além da violência dos bandidos tinha a dos próprios companheiros. Era sempre o mesmo papo: quem derrubou mais, quem bateu mais, a cara do mala enquanto apanhava de quatro, oito, doze policiais...”
Violência por engano
E Augusto continua: “Uma vez entramos numa casa, que nos indicaram como sendo a de traficantes. Metemos o pé na porta e lá estavam quatro pessoa. Três homens e uma mulher. Um senhor e dois adolescentes. No veneno a gente gritava e foi logo encostando todo mundo na parede, enquanto outros companheiros procuravam pelas drogas. Tudo foi revirado. Era uma casa na periferia. Como não achamos nada passamos a bater no senhor e nos moleques. Mas ninguém contava nada, só diziam que eram trabalhadores... O negócio durou quase uma hora: pontapés, socos, cacetadas. Não encontramos nada! Depois de um tempo é que descobrimos que invertemos o numeral: era 541 e adentramos no 514. Mas a merda já estava feita. E quando chegamos ao 514, que realmente era a casa dos malas eles já tinham vazado. Na Rota era assim: pouca conversa, muita porrada. Às vezes nos caras errados. Como muitos dizem o problema da Rota, da PM em geral, são os três “pes”: pobre, preto e da periferia.”
E pra encerrar: “O saco plástico como tortura foi inventado pela Rota e outras polícias. Creio que esse procedimento foi inventado pela polícia paulista e copiado pela carioca e outras do Brasil”.
* Nomes fictícios