

Por Natália Suzuki
SUPER: O Brasil precisa de pessoas como o capitão Nascimento?
Antonio Funari Filho: Não, absolutamente não precisa disso. O que se precisa são de pessoas inteligentes e equilibradas. O capitão Nascimento é uma pessoa desequilibrada. Se algo semelhante ao Bope do filme funcionasse, o Rio de Janeiro seria um paraíso. O filme pode ter carregado nas cores, pois o Bope aparece como um grupo de fanáticos que se dedicam à incursão no território do grupo inimigo de forma semelhante aos grupos do Oriente Médio. Um grupo assim só se presta para a vingança, todas as ações eram motivadas pela retaliação. Da forma como é retratado, O Bope aparece como um grupo terrorista, porque aterroriza a população por meio das mortes que pratica. Mas o problema continua no local.
Então, o que fazer para levar segurança às comunidades pobres?
Para garantir a segurança, é preciso a permanência do poder estatal na região com seus equipamentos sociais e a parceria da polícia com a comunidade. A presença da polícia comunitária no Jardim Ângela [bairro periférico da Zona Sul de São Paulo, tido como um dos mais violentos do mundo na década de 1990] é um exemplo disso. Se o policial age mal, está prestando um desserviço. A polícia não pode tratar a população como bandido.
Em SP, há violência policial?
Sim, existe violência policial. Embora estejam caindo, os índices de mortos pela polícia ainda estão acima do nível desejado, superiores à média internacional.
Em SP, há algum grupo policial como o Bope?
Não. O que existe são grupos de choque, mas são diferentes. A tropa de choque é treinada para ocasiões especiais, que requeiram ação forte da polícia para garantir a ordem. Esse tipo de ação deve ser uma ação de inteligência: não se pode provocar a morte da população, nem a morte covarde de ninguém, mesmo que seja de um criminoso. A ação policial tem de ter um método: ocupar um lugar para pôr ordem com o máximo de respeito à vida das pessoas. Nem sempre isso acontece. A tropa de choque tem um índice de letalidade de ação maior que a da PM normal, o que mostra que possivelmente está havendo excessos.
Quais as outras alternativas contra o crime?
Segurança pública não é responsabilidade só da polícia. O artigo 144 da Constituição diz que é dever do Estado, direito e obrigação de todos. É preciso haver envolvimento dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. O Judiciário pode contribuir muito, funcionando 24 horas por dia. O Legislativo pode contribuir despenalizando os crimes que podem ser punidos sem prisão – quando se criminaliza o usuário de drogas, por exemplo, joga-se ele para o outro lado [o dos bandidos]. E o Executivo pode ajudar na segurança investindo na educação e na formação de crianças. Ao contrário do que se pensa, não é um investimento de longo prazo. É algo que duraria cerca de 13 anos, o tempo de formação de uma criança
Nesse contexto, qual deve ser o papel da polícia?
É necessário que haja polícia eficiente e que combata o crime, com equipamento para não apenas desligar a bandidagem, mas para organizar e abrir espaço para a entrada do Estado. Inicialmente, é preciso retomar esses lugares ocupados pelos bandidos, e para isso precisa-se da tropa de choque e de inteligência.
Como funciona a chamada reciclagem policial em São Paulo?
A proposta é que haja avaliação psicológica ao longo do trabalho policial. A atividade policial é estressante, muito acima das outras atividades humanas. A pessoa que trabalha com uma arma tem de ser equilibrada. Às vezes, esse equilíbrio se perde numa atividade estressante. Por isso, é preciso um acompanhamento para que o policial possa agir em defesa dele próprio e em defesa da sociedade
Como combater a violência policial?
Por meio do acompanhamento psicológico e com o aperfeiçoamento das instituições, treinando e preparando melhor os policiais, investigando mais para abolir a tortura. Tudo isso é possível de se fazer. A tortura diminuiu nos distritos policiais, porque destruíram os “cabeças” que a praticavam.